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Quanto tempo vamos estar mortos?
perguntou o menino ao avô,
no caminho demorado da neve.
Um frio
oculto desceu da oliveira ao lado
e instalou-se na memória.
Das alturas,
alguns astros, pelo brilho, chegaram a sua voz
aos olhos molhados de velhice.
O raconto
é rápido, fulgurante e orgânico,
como o foi a vida.
Breve, o bafo quente da infância
e logo o frio, pesado ou leve, mas sempre o frio e
algum azeite de luz convocando o sentimento.
De vez
em quando, o interior de um vinho
que permitia todas as narrativas dos dias contados
pela amargura do pão,
pela indiferença
do Mundo,
pelos Herodes de Belém,
pelo lado de lá de todos os comensais
de um reino de intriga, mentira e riqueza.
Dos dias
inteiros do lado de cá, onde o silêncio
e respiração da voz, abafando o grito,
construíram o musgo, a fogueira
e os caminhos da floresta.
A neve
geme, quebradiça,
no último pensar da noite. De um Universo
a outro há um vazio. Um passo de Homem,
um esquecimento de Deus.
Talvez
tivesse havido alguma refeição
em casa de fariseu
e uma mulher inopinada, interrompida,
e a quem
jamais
se poderá perdoar, tão pouca é a justiça
na sua construção.
Agora,
que é já tarde demais para tudo,
excepto para a luz, construtora das noites,
a terra bate o seu apelo macio na neve
que cobre o horizonte e,
amante
como é de todos os mortos,
banha com
lágrimas os pés e aquece-os
eroticamente
com os seus cabelos
enquanto, devagar,
os vai
beijando
num perfume de noite de mirra
e incenso.
Alguns
grãos da romã original compõem
a mesa de uma ceia onde não falta
o mel e o vinho quente.
Na curva
além, do caminho,
algo parece que vai acontecer,
tão branca e anímica é a neve.
O avô
levou de novo os olhos aos astros
para responder.
Alguém,
que não sabemos,
tem a duração
desse tempo
para cada um de nós.
Porque sabe, exactamente,
quando
renasceremos.
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