METÁFORA DO NATAL PRESENTE

Rogério Carrola
Poema extraído de INCOMUNIDADE

 

Quanto tempo vamos estar mortos?
perguntou o menino ao avô,
no caminho demorado da neve.

Um frio oculto desceu da oliveira ao lado
e instalou-se na memória.

Das alturas,
alguns astros, pelo brilho, chegaram a sua voz
aos olhos molhados de velhice.

O raconto é rápido, fulgurante e orgânico,
como o foi a vida.
Breve, o bafo quente da infância
e logo o frio, pesado ou leve, mas sempre o frio e
algum azeite de luz convocando o sentimento.

De vez em quando, o interior de um vinho
que permitia todas as narrativas dos dias contados
pela amargura do pão,

pela indiferença do Mundo,
pelos Herodes de Belém,
pelo lado de lá de todos os comensais
de um reino de intriga, mentira e riqueza.

Dos dias inteiros do lado de cá, onde o silêncio
e respiração da voz, abafando o grito,
construíram o musgo, a fogueira
e os caminhos da floresta.

A neve geme, quebradiça,
no último pensar da noite. De um Universo
a outro há um vazio. Um passo de Homem,
um esquecimento de Deus.

Talvez tivesse havido alguma refeição
em casa de fariseu
e uma mulher inopinada, interrompida,
e a quem

jamais se poderá perdoar, tão pouca é a justiça
na sua construção.

Agora,
que é já tarde demais para tudo,
excepto para a luz, construtora das noites,
a terra bate o seu apelo macio na neve
que cobre o horizonte e,

amante como é de todos os mortos,

banha com lágrimas os pés e aquece-os
eroticamente
com os seus cabelos
enquanto, devagar,

os vai beijando
num perfume de noite de mirra
e incenso.

Alguns grãos da romã original compõem
a mesa de uma ceia onde não falta
o mel e o vinho quente.

Na curva além, do caminho,
algo parece que vai acontecer,
tão branca e anímica é a neve.

O avô levou de novo os olhos aos astros
para responder.

Alguém, que não sabemos,

tem a duração desse tempo
para cada um de nós.
Porque sabe, exactamente,

quando renasceremos.